Um beijo antes de dormir.
Ao acordar, a mesa posta é o cenário para falas parentais de orgulho e afeto à estudante de uniforme escolar e mochila nas costas.
— Boa aula, filha, você se sairá bem na prova.
— Obrigada, mãe, você é a melhor mãe do mundo!
— Arrasa, filhota!
— Valeu, pai!
Se você vive nesse comercial de margarina, queira receber minhas sinceras congratulações. Mas, se como Júlia, a protagonista de A pequena coreografia do adeus, da premiada escritora Aline Bei, o ambiente familiar é sombrio, abusivo e sufocante, eu lhe digo, leitor(a), que não é para menos.
Adultos geralmente vivem entre os cacos de suas desilusões.
Pela manhã, juntamos os fragmentos que, disfarçados por um sorriso mentolado, pegam o transporte rumo a mais uma jornada de trabalho.
Colegas estilhaçados por décadas de desenganos nos cumprimentam com olhos de insônia. Na sequência matinal, um chefe de espírito esgotado e corpo cafeinado tenta montar, com nossas peças avulsas, um quebra-cabeça em que aparecem as figuras de empresas, governos, países...
Mas quando ocorre essa quebra? Como algumas pessoas escapam ao rompimento de si mesmas?
Para a grande maioria, a ruptura inicial ocorre ainda na infância.
O cimento estrutural de todo ser humano é o amor que recebemos dos parentes mais próximos. Pais fraturados por frustrações, ressentimentos e medos internos são brocas, marteletes, perfuratrizes do concreto que deveria unir e proteger o asfalto familiar.
Em piso firme, crianças andam com segurança, adolescentes dançam e jovens adultos conseguem pegar o impulso necessário para o primeiro voo de vida em direção à descoberta de solo próprio, autêntico.
Pelo viés da sensibilidade, para evidenciar a existência partida ao meio da pequena Júlia, explora Aline Bei novas fendas narrativas e linguísticas. Sofrendo punições por conflitos domésticos protagonizados por seus pais, a menina não encontra terreno estável para crescer com confiança.
Tempos depois, longe da opressão parental, Júlia dança seu balé único, individual. A idealização de outra história íntima é a substância que aglutina os elementos despedaçados do seu ser. E é por meio desse talento imaginativo que a jovem, para consolidar sua verdadeira e promissora essência artística, colará dentro de si seus cacos soltos e cortantes.
Na esteira de escritoras contemporâneas como Elena Ferrante e Tatiana Tibuleac, Aline Bei desvenda realidades psicológicas no âmago de relações parentais distantes do modelo perfeccionista, produtivista e hipócrita que moldou o imaginário das gerações anteriores.
A fim de preparar o palco para novas possibilidades afetivas e familiares, dancemos com entusiasmo essa bela coreografia do adeus.
Advogada e escritora pernambucana radicada em Vitória, a cidade que escolheu para viver. Leitora dedicada desde a infância, nesta página compartilha textos que falam da vida e dos livros, se é que seja possível distinguir entre eles.
© 2022 Marcela Guimarães Neves