6 de setembro de 2022

A morada

Marcela Guimarães Neves

Onde mora a liberdade? Estará ela em endereço longínquo? Numa carona na beira da estrada? Na estreita abertura de uma gaiola? No som metálico que antecede o rompimento dos grilhões? Ou a liberdade estaria instalada em uma sala escura, parcamente arejada e bem escondida dentro de nós?

Não foram poucas as culturas, nem recentes as épocas históricas, a lidar com interrogações acerca dos espaços de autodeterminação. Já na Antiguidade, a liberdade, assim como a cidadania, consistia no privilégio de alguns afortunados. Fato é que, em períodos em que a vida humana durava pífios verões, questões como existência, morte, autonomia ou escravização habitavam em um domínio mais interno, numa vida interior mais significativa, a unir, em igualdade de crenças filosóficas, tanto grandes monarcas — como o sábio imperador romano Marco Aurélio — quanto verdadeiros escravos-filósofos, tal qual o mestre grego Epicteto. Para ambos, uma vida livre não se limitava às belas colunas dos palácios dos Césares, assim como não poderia ser totalmente aniquilada pelo estalar de chicotes, haja vista fixar moradia num lugar quase impenetrável da alma humana, um local onde residem todas as lições e todos os aprendizados, isto é, na mente pensante.

Encarcerado no Château d’If, Edmond Dantès, aquele que viria a se tornar o Conde de Monte Cristo, recebeu de seu vizinho de cela o grande ensinamento que proporcionou não apenas sua libertação daquela terrível prisão, mas também a chave para a sua vingança: o conhecimento adquirido é o único bem que não pode ser objeto de apropriação alheia. De acordo com a genialidade de Alexandre Dumas, não estaria aí o caminho para a liberdade?

Em mais recente momento, exemplos de resistência político-social, sobretudo no que concerne à luta pelo fim de regimes totalitários, Nelson Mandela e José Alberto Mujica (o Pepe Mujica), personalidades que enfrentaram anos de duro cárcere, de igual forma demostraram uma potência mental libertária, apta não só a ultrapassar as grossas grades de ferro de suas respectivas clausuras, como a influenciar gerações na busca pela emancipação.

Com efeito, para conseguir alçar voos nas asas da liberdade, há que se encontrar a ferramenta hábil a quebrar todas as correntes, inclusive aquela cujo acesso, por muitas artimanhas político-econômicas, nos é dissimulado, escamoteado e até mesmo negado: a educação.

Como verdadeiros Quixotes, professores de todo o país tentam movimentar essa chave como se passa o bastão numa maratona olímpica, já que é preciso ter a força de semideuses para enfrentar as mazelas do sistema educacional brasileiro. Mas se aceitam o desafio hercúleo, certamente o fazem porque acreditam no mapa do conhecimento como o único instrumento capaz de achar o “x” que marca o local da independência dentro e fora de nós.

Quando atingimos a paz de um verdadeiro espírito livre, descobrindo o aconchego de um ambiente onde reina o amor pela sabedoria libertadora, respiramos aliviados, visto que finda está a nossa procura: a liberdade mora na filosofia.

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Marcela Guimarães Neves

Advogada e escritora pernambucana radicada em Vitória, a cidade que escolheu para viver. Leitora dedicada desde a infância, nesta página compartilha textos que falam da vida e dos livros, se é que seja possível distinguir entre eles.

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